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Mais uma vez o Valo Grande deu o ar de sua desgraça!
 Ontem, dia 27 de julho de 2006, as águas do canal do Valo Grande engoliram mais um pedaço de sua vítima preferencial, a triste e pacata cidade de Iguape. Foram apenas algumas horas para consumir seis casas, destruídas completamente, e outras vinte e três interditadas por prazo indeterminado, cujos proprietários são algumas pobres famílias que viram suas vidas e sonhos serem levados literalmente pelas águas.
Não é de hoje que esta obra impensada, realizada ainda no século XVII, consome as riquezas desta terra. Outrora fossem apenas os cardumes de peixes, ostras e caranguejo a serem afetados em sua biologia pelas águas doces e barrentas do Rio Ribeira, que são carreadas em plenitude através do Valo Grande para dentro do mar pequeno, ou também o emprego e a qualidade de vida, já tanto miserável de uma centena de pobres pescadores locais, ou até mesmo os dividendos cada vez mais escassos do turismo que se afasta de áreas degradadas e contaminadas, mas desta vez, a desgraça se abateu sobre casas, sobre famílias, sobre planos, e vamos esperar o que? Abater também vidas!
São mais de 15 anos de inércia do Estado, que vem empurrando com sua barriga gorda e inconseqüente a resolução deste problema, que há muito já devia ter sido pelo menos minimizado, se a conclusão das obras da barragem, com a devida colocação das comportas fosse executada. Mas não; tudo sempre foi muito bem justificado, através dos discursos políticos eloqüentes e da retórica quase sempre passional de agricultores e pescadores, ora a favor do término da obra, ora a favor do permanente problema.
Quem sabe se os culpados não são os ambientalistas, que durante anos vem pregando aos quatro ventos, que a obra do Valo Grande está comprometendo de forma definitiva a sociobiodiversidade do sistema lagunar. Talvez esses bruxos verdes devam ser queimados em praça pública por preconizar, aquilo que só os olhos míopes, mas poderosos, dos detentores de cargos públicos não conseguem enxergar.
Acredito que devemos também condenar o Rio Ribeira, este curso d'água incontrolável, que deveria correr somente onde o homem manda, bem manso, trazendo apenas fartura e prosperidade, e de preferência somente água, na quantidade e qualidade desejadas. Um outro culpado por esta desgraça, também deve se a terra, que emoldura a calha do rio e deveria suportar este pequeno atrito com água, fato que acontece somente a exatos 158 anos.
Os únicos inocentes deste trágico episódio talvez sejam os políticos, que com suas visões estrategistas voltadas ao progresso da região, foram pegos de surpresa por esta natureza de reações imprevisíveis. E estes mesmos políticos, eternos visionários da panacéia desenvolvimentista, ainda querem mais barragens, e lutam afoitamente para que a hidroelétrica de Tijuco Alto seja de fato implantada no alto ribeira, colocando sobre a cabeça das populações do Vale do Ribeira, mais uma bomba relógio, que um dia, assim como o Valo Grande, certamente explodirá.
Como o velho ditado diz, que só quem escreve a história são os vencedores, esta triste relação entre a cidade de Iguape e o canal do Valo Grande não possui histórias, até porque, só existem perdedores.
Este texto é um simples desabafo de quem ainda espera ver a obra definitivamente concluída.
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